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Athos Bulcão e sua galeria de arte a céu aberto

As pessoas nem se dão conta, mas todas as noites, de forma sorrateira, o artista plástico Athos Bulcão – falecido em julho de 2008, aos 90 anos – é presença garantida nos lares dos brasileiros. E no horário nobre. Basta ligar a TV e vê-lo, durante os noticiários, no Salão Verde do Congresso Nacional, entre a rodoviária do Plano Piloto e os ministérios e até, veja só, nas audiências do Superior Tribunal Federal (STF). Nesses espaços e em mais de 200 outros do DF, as obras  dele surgem no dia a dia das pessoas e da cidade de forma sutil, imprimindo, tal qual uma identidade digital própria, marcante estética visual à capital.

“Ele foi o principal colaborador nas obras de complementação arquitetônica do Oscar Niemeyer”, destaca o jornalista Sérgio Moriconi, diretor de curta-metragem Athos(1998), que tem o artista como tema central. “A importância fundamental dele foi ter deixado uma identidade visual na cidade, criando um alfabeto próprio a partir das obras de azulejaria. Quando a gente bate o olho, já sabe que é Brasília. E não apenas os azulejos – nem precisa falar dos cubos do Teatro Nacional”, avalia.

O talento de Athos Bulcão vai além da simetria geométrica colorida, alegre e leve dos marcantes azulejos que, de tão simples, mas onipresentes, parecem quase de casa. Artista múltiplo que dominava várias linguagens e técnicas que iam das colagens fotográficas a desenhos, passando pelas obsessivas máscaras, esse pioneiro das artes em Brasília fez da capital federal uma galeria a céu aberto, com com sua criatividade.

São pinturas, desenhos, gravuras, relevos em madeira e concreto e, claro, os líricos azulejos, que se fundem em perfeita harmonia e integração entre arte e arquitetura. Não há direção em que se olhe no DF que não sinalize um trabalho do artista. Infelizmente, muitas pessoas desconhecem o autor dessas obras – mesmo convivendo, diariamente, com as intervenções coloridas presentes nas paredes do Cine Brasília ou no Teatro Nacional, bem como nos templos, fachadas de prédios comerciais e residenciais, escolas, hospitais e até no aeroporto.

“É uma loucura o que tem de trabalho de Athos Bulcão em Brasília. É o artista com mais obras públicas no mundo numa única cidade”, valoriza o jornalista, escritor e também artista plástico Bené Fonteles, que foi grande amigo de Athos Bulcão. “Tínhamos uma relação profunda. Brasília tem que agradecer todos os dias por ter tido um artista como o Athos Bulcão, que povoou essa cidade de cabo a rabo com seu talento e sensibilidade”.

Pioneirismo

Talvez o primeiro nome das artes, de fato, a chegar ao Planalto Central, em 1957, Athos Bulcão se apaixonou logo de cara pela imensidão do Cerrado e sua ausência de paisagem, vislumbrando um cenário de infinitas possibilidades para exercitar sua vrve criativa. Imagine um artista ter uma cidade inteira a seu dispor para embelezar, criar, trabalhar, integrar a uma arquitetura modernista que correu o mundo. Assim foi com Athos Bulcão. E ele não decepcionou.

Veio, assim como tantos outros na época, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, a quem conheceu em 1943, transitando entre a nata cultural do Rio de Janeiro, onde nasceu. Era de família abastada, e o pai, um industrial que chegou a ser sócio de Monteiro Lobato, já tinha um filho engenheiro e queria o outro médico.

Assim, Athos chegou a cursar três anos de medicina, mas logo percebeu que estava tomando o rumo errado. Largou tudo e foi estudar na França, de onde voltou com bagagem de sobra para iniciar carreira brilhante nas artes plásticas. “Ele dizia que seria péssimo médico, e, pelo bom artista que era, tinha razão”, comentou certa vez, em um documentário, Valéria Cabral, diretora da Fundação Athos Bulcão, criada em 1992 com o intuito de manter viva a obra do artista.

Azulejos

Nos anos 1940, convidado pelo pintor Cândido Portinari, Athos trabalhou como assistente na execução do painel de São Francisco de Assis, na Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte (MG). Para muitos, aquele foi o projeto que deu início a Brasília. Ao Planalto Central, ele já chegou causando espanto. Faltavam ainda dois anos para a inauguração da nova capital e Athos já havia concluído alguns de seus trabalhos mais emblemáticos, como os azulejos da Igreja Nossa Senhora de Fátima ( a Igrejinha), da 308 Sul.

Reza a lenda que um dia Oscar Niemeyer lhe apresentou os rascunhos daquele “chapéu de freira” e ele comentou, já planejando o que queria fazer para os murais da Igrejinha, que seria o seu primeiro trabalho em Brasília: “Acho que o Brasil já tem igrejas opressoras demais. Eu queria que essa igreja tivesse a mágica de uma noite de São João”. Assim foram reproduzidas, valorizadas por seu talento, as intervenções simbólicas da fé católica: a pomba, representando o Espírito Santo, e a estrela, referência ao astro que guiou os três reis magos até o menino Jesus.

Nos anos 1970, seguindo os passos do amigo Niemeyer, Athos deixaria sua marca registrada em vários pontos do mundo. Onde tinha um traço do arquiteto modernista, lá estava presente Athos Bulcão com seu lirismo geométrico, nas embaixadas da Argentina, Cabo Verde, Nigéria e Índia, bem como em prédios privados e públicos da Itália. Tornou-se um artista reconhecido em nível internacional, lembra Bené Fonteles.

“Artista eu era, pioneiro me fiz”, declarou Athos certa vez, orgulhoso de sua condição. “Devo a Brasília este sofrido privilégio, realmente um privilégio. Ser pioneiro. Pureza que gera espírito. Um prêmio moral”.

Agência Brasília