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Carina Matos: “Falar sobre doenças sexualmente transmissíveis ainda é tabu”

Às vésperas do Dia Mundial de Combate à Aids, gerente da Secretaria de Saúde fala sobre o valor do respeito aos pacientes

Celebrada em novembro e convertida a lei em 2008, a Semana Distrital de Ações de Prevenção ao HIV/Aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) é uma iniciativa que busca conscientizar e informar a população sobre o tema. Para esclarecer questões a respeito das doenças sexualmente transmissíveis e alertar o público jovem, responsável por um grande número de ocorrências, a Agência Brasília conversou com a gerente de Vigilância de IST da Secretaria de Saúde, Carina Matos. Em 1º de dezembro, é instituído o Dia Mundial de Combate à Aids.
Foto: Acácio Pinheiro/Agência Brasília
Dos 3.731 casos de HIV notificados nos últimos cinco anos no Distrito Federal, 51% ocorreram na faixa etária entre 15 e 29 anos, segundo dados da Secretaria de Saúde (SES). Somente no ano passado, do total de 680 episódios de HIV detectados em todas as idades, 80% estão entre pessoas de 15 a 39 anos. Tais números ligam o sinal de alerta e reforçam a necessidade de um maior diálogo e informações. É sobre esse assunto que Carina Matos fala, na entrevista abaixo.

Como está o cenário das doenças sexualmente transmissíveis no Distrito Federal?
Hoje a gente consegue falar muito bem sobre duas doenças porque elas são de notificação compulsória no Brasil, então nós temos os dados bem-postos da sífilis e do HIV/Aids. As outras patologias temos alguns dados que não dá para dizer que são os reais do número de casos. Tivemos, até junho, 15 mil casos de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) diversas, 1.841 casos de sífilis até outubro e 959 de HIV/Aids, de dados provisórios. Quando falamos sobre os dados de agora, são referentes aos dados de 2018. Todo ano corrente a gente analisa o ano anterior epidemiológico. Nós temos tido um aumento dos casos de IST, mas esse é um cenário na verdade do Brasil, e, quando a gente fala em sífilis, é um cenário mundial.

A Secretaria de Saúde está abastecida de insumos e profissionais para atender à sociedade? Como é o atendimento na rede pública do DF?
A Secretaria de Saúde distribui preservativos (interno e externo) e gel lubrificante. A distribuição tem sido regular. Teste regular para as patologias, temos para a sífilis, HIV, hepatite B e hepatite C também nas unidades básicas. Agora, em dezembro, fomos convidados pelo Ministério da Saúde para entrar no projeto do autoteste, uma distribuição que ainda não é para toda a população, mas é um teste para ser realizado em casa por alguém que não frequenta o ambiente da saúde, uma Unidade Básica de Saúde [UBS].

A incidência de IST entre jovens de 15 e 29 anos é uma grande preocupação. Como alcançar esse público por meio de campanhas e ações?
Quando a gente fala em IST, existe uma barreira em razão do tabu. Falar sobre sexo e doenças sexualmente transmissíveis ainda é tabu, em especial em relação aos jovens. Enquanto Secretaria de Saúde, a gente tem os locais de atendimento, a distribuição de preservativos, atendimento exclusivo para os jovens como o Adolescentro e a capacitação para os servidores. A gente procura abordar a questão da saúde sexual como parte da saúde integral do paciente, falar disso naturalmente, como falamos, por exemplo, da saúde do sistema digestivo. Ninguém tem vergonha em entrar numa unidade de saúde e dizer que está com disenteria, mas ainda hoje é tabu dizer que está com uma ferida no pênis ou na vagina. A ideia é lidar com os tabus respeitando os pacientes e a privacidade.

Como impactar esse público?
Nessa nossa Semana Distrital de Ações de Prevenção ao HIV/Aids e outras IST, tivemos iniciativas exclusivas para os jovens. Reunimos cerca de 40 pessoas na Câmara Legislativa em parceria com a Secretaria de Justiça e a UnAids para conversar com esse público. Também fazemos capacitação dos servidores para lidar com os jovens.

Como deve ficar a divisão de responsabilidades e troca de informações entre familiares e amigos, escola e rede de saúde? Como cada um pode ajudar?
A gente caminha para um bom diálogo entre saúde e educação. Existe o programa Saúde nas Escolas, em que um dos eixos é sobre a sexualidade. Esse diálogo nós temos, entre saúde e educação, mas também se trata de algo ofertado. É uma carta de serviços que precisa ser solicitada. Assim, voltamos à questão do tabu. É difícil conseguir entrar num local onde as pessoas não querem conversar sobre isso. Os pais precisam estar conscientes e dispostos. A maior mensagem é que não tem problema, não é demérito você não conseguir conversar sobre determinados assuntos com seus filhos, mas é importantíssimo entender nossos limites, não limitar nossos filhos dentro dos nossos limites, ou seja, se não consigo falar sobre um tema, eu os levo a quem possa falar. Os médicos podem abordar a questão da sexualidade, a escola também. Os jovens fazem aquilo que não conhecem por curiosidade. Uma vez que os jovens têm educação sexual, eles optam por iniciar sua vida sexual não precocemente, escolhem um momento mais maduro para isso.

A curva de crescimento da sífilis adquirida assusta. Como contê-la? O que explica esse fenômeno?
Quando você pega os dados do Ministério da Saúde, ele liberou os números em 2010, quando foram 21 casos. Ainda não era [tema] tratado como notificação compulsória para o Ministério, então ter um número pequeno à época não era porque não existiam casos, mas porque não comunicavam a incidência deles. Tivemos um aumento da sífilis. Em 2018, foram 1.841 casos [dados provisórios até outubro], e por isso temos feito a capacitação de servidores, distribuído os insumos, ofertado eventos educativos e também o diagnóstico, tratamento e monitoramento. A sífilis tem aumentado em todo o mundo, e as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam para seis milhões de casos por ano.

A Aids, o HIV e a sífilis estão na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças do Ministério da Saúde. O que significa essa lista?
É a lista de patologias que o profissional de saúde diagnostica e é obrigado a comunicar para a saúde pública o resultado desse exame, é uma comunicação em saúde. Essas doenças (HIV/Aids e sífilis) são de notificação compulsória porque elas têm uma importância para a saúde pública. Como são doenças transmissíveis, existe essa comunicação exatamente para que se possa fazer a busca ativa desse paciente, interferir na questão de educar preventivamente, informar os meios de prevenção e que existe tratamento.

Como é o tratamento para cada uma dessas doenças?
No caso da sífilis, o tratamento vai depender do estágio clínico da doença. Ele é feito com penicilina – antigamente, o nome comercial era Benzetacil – e a quantidade depende do momento em que acontece o diagnóstico. O tratamento pode levar de uma a três semanas. O de HIV é feito com medicação diária. Há tratamentos até com um comprimido, mas vai depender do estágio clínico do paciente. É importante salientar que o tratamento é extremamente efetivo. O Ministério da Saúde comunicou que a maior parte desses pacientes, em três meses, tem a carga viral indetectável. Isso quer dizer que eu colho os exames e não consigo enxergar uma quantidade grande de vírus circulando depois de três meses de tratamento. Quando não tenho essa carga detectável, ele não transmite sexualmente o HIV. Então, quando se fala em prevenção, o tratamento também é uma forma de prevenção. Não exclui o uso do preservativo, mas é uma segurança maior que esse paciente não vai transmitir o vírus.

A rede pública de saúde do DF dispõe de atendimento?
A rede oferece tanto para HIV quanto para sífilis. A sífilis, qualquer Unidade Básica de Saúde faz o diagnóstico, monitoramento e tratamento. O diagnóstico, quando coletado, traz a resposta em 30 minutos. A pessoa sai da unidade sabendo [do resultado] e já é instituído o tratamento e acompanhamento também. O de HIV é ofertado em locais de Serviço de Atendimento Especializado [SAE] em HIV/Aids. O diagnóstico pode ser feito em uma Unidade Básica de Saúde, que dispõe do teste rápido, e também temos o Centro de Testagem e Aconselhamento [CTA], que fica no mezanino da Rodoviária do Plano Piloto. O tratamento e o monitoramento, porém, são feitos no SAE.

A última semana de novembro é, por lei, a Semana Distrital de Ações de Prevenção ao HIV/Aids e outras IST. Lançar luz ao tema é importante, mas como torná-lo um assunto perene nas escolas e rede pública de saúde?
A gente vai lidar com a naturalização de conversar sobre sexualidade e educação sexual, que é uma coisa natural, e as infecções sexualmente transmissíveis existem. [É preciso] que a gente possa conseguir diariamente enxergar a saúde sexual como uma parte outra qualquer da nossa saúde.